terça-feira, 26 de julho de 2016

Ser livre é ser só: o mundo não perdoa aos "diferentões"

Memorial Roosevelt 
Ficar só, eis tudo. Em certos tempos, tu podes suportar ofensas, é tolerável que tu cedas a outros em seus devidos caprichos, cedendo como quem faz isso por gosto e não por obrigações. Mas tu não suportas mais mesmo é a ingratidão, ingratidão pelo que és, pelo que fazes de bem para o próximo. Ora, "faze o bem sem olhar a quem".

Sim, certamente, mas a dor costuma vir de lugares muito delicados da alma, então tu sentes que mexeram não em tuas feridas, mas mexeram no invisível de tua serenidade, no âmago de tuas melhores e boas intenções, mexeram naquilo que jamais pensarias ter em ti de modo tão tênue e marcante, mexeram e obstaram a tua liberdade.

A liberdade de pensares como ainda em tenra idade pensavas, como criança plena de criatividade que foras; a liberdade de crescer e vivenciar por ti mesmo as melhores e as piores experiências, entendendo que tudo não passava de alguns desvios externos que não iriam comprometer tua força juvenil e altaneira.

Plêaides

"Faze o bem sem olhar a quem", então tu ouves tacitamente: "tua vida é feita por tuas escolhas!".  Faço então minha prece às musas estelares, pois, como está escrito em Dante Alighieri: "se seguires a tua estrela não poderás deixar de atingir o teu glorioso porto".


Ó mi'a diva luz que em doces 
Que em cintilantes conselhos 
M'inspira ciente sê
que d'altos céus vicejando
N'as divinas rotas tuas 
Apelo sutil te alço 
Sinta, ó inspirada estrela 
De ninar, ó deidade 
Múltipla, de ondas remotas 
E d'outras plagas vens
De mi'a parte dito fausto
Ó Nobilíssimo clamor
D'altas sabedorias 
em magnânimo voto
em anseio vosso livre
Liberdade também gáudios 
De ti portar desejo 


Ao que de tudo que te resta, surgiu a ti como em espectro, como em sonho incontido e irrealizável, então toda a liberdade estava em ti mesmo, mas em ti menos emocional e mais racional e altivo e se tiveres de pagar um preço pela tua liberdade que evadas de tudo sem para trás volveres os olhos: "vai-te daqui, mas não queiras olhar para trás!"

Sorri a quem te sorri, mas segue tua destinação na possível conformidade com teus anseios. São teus próprios anseios aqueles que te isolam, todavia, estes mesmos, teus anseios são os verdadeiros portadores da liberdade. Viver só enfim não é o mal maior do homem, mal maior é viver agrilhoado por entes, ainda que iluminados, que de certa forma não conjugam com teus ideais clássicos, de estátua grega ou de letras latinas.

Foste longe demais em tuas empreitadas literárias, tomaste para ti o Dom Quixote de todos os dias, mas sem um Sancho Pança que te ouça, lembrando que ou tudo é real ou tudo é mera ilusão, a resposta certa ninguém poderá ao certo dizer.

Ó dura batalha de pertencer a ti mesmo, não darás satisfações de teus atos, mas não constituirás família, não prosperarás de mais a mais, porque o cordão de um nó apenas arrebenta na primeira adversidade ou intempérie. Serás só, eis tudo, este é o preço calculado de toda empreitada solitária, vem como ressaca marítima, mas certamente vem. Ao que tentei amar, mas deixo minha prece às minhas caras estrelinhas.

terça-feira, 19 de julho de 2016

O mínimo "eu" na Megalópole

Circundado por edifícios cambiantes em luzes e com entra e sai de pessoas, ora acauteladas ora apressadas, fechado por sombras de mais edificações e cheiros de ventos de corredores inóspitos exalando a desinfetante, assim caminha o leigo homem na grande cidade, os arranha-céus vieram e lhe retiraram a saudosa cidade em que vivia. O passado em sombras ecoa memorando ruas eternamente cravadas no dileto sonho do caminhar por jardins floridos, ali se viam paralelepípedos, singelos cercadinhos de cada jardim, ladeirinhas com casinhas de construção padrão a ornamentarem nossas famílias que eram em sua totalidade guarnecidas por telhas sem forro, muros com frutos de cá e lá exorbitantes, formigas invasoras e fujonas, bolas de futebol a cair e a voar de um lado a outro, bondes que trafegavam, trazendo à cena o retorno do pater familias à casa com o semblante da hora da canção da Ave Maria.

Assevero-me que vivi aqui em tempos remotos, como certa vez em mídia distinta registrei:



"Porque quando vejo a Belo Horizonte de 1910 vejo paz
Vejo pelas edificações uma cidade encantada e ainda promissora
Vejo janelas e vejo o verde, vejo ruas e vejo passeios à tardinha
Mas como posso ver o verde?
É porque me parece que realmente estive ali naqueles idos
É porque me vejo firme nessas ladeiras imemoriais
Sim, eu estive ali, como transeunte olhando o futuro
Como um que registrasse hoje as vagas impressões
De dentro de um restaurante no momento de suas depressões
Passou-lhe mais as revelações da imagem do que degustativas
A televisão e as pessoas e o alimento à mesa sumiram
Fiquei observando identificado a cidade de onde vim
E percebi mais triste ainda que todas essas construções
Todos esses desenhos magistrais de uma cidade bela
Tudo, absolutamente tudo deu lugar a outras construções
E quando me vejo hoje em árvores derrubadas a passeios novos
Penso que a história dessa cidade e de muitas outras continua idêntica
Penso que de casas e de prédios virão outros
Penso que de árvores e ladrilhos virão carros, protestos e dias cinzentos
Mas penso ainda mais, foram-se os burros de carga, os homens de terno, as mulheres com seus vestidos primaveris e guris à barra de suas canelas
Penso que hoje a bela cidade continua indo transformada
E que daqui a alguns dias irei também eu apaziguado, amortizado
Irei como os de outrora
E haverão outras pessoas que refletirão de imagens e em imagens
E enfim a integralidade do todo fará tudo perfeito
Pois os tempos idos de BH rememorada são os tempos presentes de BH fundindo-se ao futuro como nessa mesma ação
A cidade antiga sempre presente em memórias laudatórias
E a cidade dada como morta não pode parar pela forte carga de um passado enérgico, vigoroso e sutil
Porque quando vejo a Belo Horizonte de 1910 vejo a mim mesmo
Vejo pelo que havia e pelo que é uma grande vocação paradisíaca
Finalmente, ela não morreu, apenas esqueceu de ser lembrada
Esqueceu que alamedas são mais incessantes do que avenidas
Que bondes mais permanentes do que automóveis
Que homens de terno mais felizes do que homens de camiseta
Vivendo 106 anos após com uma desusada ilusão poética do quintal que lhe criou"


No hoje revidado em seu sonho antecessor, está o vagante caminhando perdido por entre desconhecidos que trouxeram à cidade luzes e anonimato, feiras e desigualdade. Aquela outrora projetada megalópole reduz o "eu" a um participante mínimo que floreia quando em vez seus rabiscos à procura de quem melhor o entenda nesse grosso caudal da convivência. No entanto, tudo que na vida mais ventura traga, fim próximo tem, nada eterno persiste nessa estrada infinda, ainda que queiramos o contato com entes do passado, com ruas do passado, com brincadeiras de nossa infância. É, pois, necessário, semear as novas contingências desse presente que minimiza cada ente, ao que novos homens empreendem novas histórias, mesmo em suas limitações mais cruzadas.

A cidade ergueu-se natural ao longo dos anos e com muita força de gente honesta e hoje se afigura como uma das grandes capitais do mundo, mas alguns que ainda aqui vivem sentem a vera nostalgia dos tempos em que famílias se entrelaçavam e os amores por fim se enleavam com beijo e muitos amores. Ali, o contato era físico, evidente e de todo amigável, hoje, entretanto, todo contato é suspeito, toda investida é calibrada de receios e por isso ficamos sós, mínimos em nosso "eu", naquela que era para ser uma cidade hospitaleira e de todos. Não amargo os tempos findos, mas anseio os tempos em que o moderno e a modernidade cedam enfim à mais antiga história de fundação dessa cidade: erigida na paz, no seio da família e na conjugação do amor.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Bem consigo mesmo

Os obstáculos à felicidade humana não são verdadeiramente obstáculos, ao que o verdadeiro obstáculo é a morte, enquanto esta não houver, haverá ainda um motivo para que se possa dizer de si para si: "folgo em me ver bem e o mais não me importa". Em todos os dias, é necessário lidar com estradas - essas que devemos percorrer diariamente - e de todos os desafios, os mais difíceis de lidar são os desafios da mente: a produção de sentido executada pelo pensamento em virtude dos muitos símbolos pelos quais representam a vida que vivemos. Nessa vida não há sequer um momento sensitivo que não passe pela esfera simbólica, assim é necessário que de símbolo por símbolo que melhor sejam os símbolos da positividade, pois nada é realmente o que parece se pensarmos ao fundo que o melhor mesmo é estar bem consigo mesmo.

Prantos, discórdias, fracassos, perdas, tormentas, tempestades reais, mentais, enredos não previstos, acusações, traições, falso testemunho, calúnia, difamação, perseguição, desordem, dívidas, desencontros, solidão, falta de tino no amor, derrocada abrupta, discussões, advertências, encontrões, cismas, paralisias, cortes, rupturas, fragmentos, incursões, riscos, desafetos, iras, covardias, tudo isso ainda não deveria e não é suficiente para tirar do indivíduo a alegria e a felicidade, visto que estar bem consigo mesmo independe de todas essas situações que são, em certa medida, externas a ele.

Ninguém é de ferro, mas nada melhor do que assistir a um filme, ler um livro, deitar-se em uma cama confortável, realizar um passeio em lugar bonito de se ver, compartilhar da cultura, ouvir uma boa música e ter de si para si uma boa reflexão.

Pesadas todas as adversidades, aquele que está bem consigo mesmo supera a todas elas, liquefazendo as perdas como que dissolvendo resíduos sólidos e os escoando pelo esgoto. Aquilo que não tem valor deve ser colocado em seu lugar, aliás lugar que não tem lugar, assim na inexistência. Não serão as reviravoltas que me trarão tristeza, pois são exatamente as perdas que fazem o ser refletir que é por elas que se avalia a essência. Talvez, é perdendo que se ganhe, a força só é força na requerida hora, ali ela é flexionada no peso que lhe é imposto, como necessidade e como reação igual e repentina a essa necessidade que por ali surgiu, por mais chã que seja, mas contra a força não há resistência possível.

O essencial, então, está na ordem da frieza com aquilo que é frio e na dureza com aquilo que é duro e importância mesmo só aquilo que emociona pela realeza, pela nobreza e pelo tino mais acertado com o caráter e com a idoneidade. Toda crítica ou desconstrução que fazem de si e contra si são infundadas se o ser não se conforma no rótulo que lhe é imposto, e isso, com toda certeza, é uma ação quase sem ação, quer dizer, não necessita esforço algum para ser feita e passada a limpo. A essência é sutil e grave, nela não se pode alterar nem mexer na natureza que lhe é familiar, ela é sobretudo óbvia. Então, por que pensar naquilo que não constrói e que externamente chega? Sem função, é hora de caminhar só, mas só sem dar a mínima. O amor? Venha de quem vier, virá na hora certa.


domingo, 3 de julho de 2016

Quando a missão ainda não se completou

Os olhos podem ver as turbulências de uma vida ainda em vias de aprumar, os olhos podem considerar com toda a angústia as circunstâncias pessimistas, amargas e tristes. No entanto, aquilo que os olhos não podem sequer divisar em sua mais completa nitidez é a função, a sequência e o término de uma missão. A vida poderia em certos momentos parecer banal e corriqueira, porém a missão é portentosa e espantosa. Ainda que em adjacências menos conscientes e com visões turvas e pouco mediadas pela sabedoria digam evidentemente o contrário, o eixo que recoloca tudo conforme a vitalidade da força astrofísica, física, biológica, endêmica, sistemática e prevalente em um ecossistema específico eclode em uma existência indelével sem que haja para isso solução pertinaz ou maldosa para liquefazer o milagre da existência. O triunfo é obra projetada desde tempos imemoriais, não haveria portanto como abortar uma missão, tanto mais se essa missão for uma vida.


Ainda não é chegada a hora do término de uma missão que possui origens tão distintas e vigorosas em seu alicerce histórico. Não existe para tal um desfecho imprevisto, para todas as ações prodigiosas existe decerto um merecimento. Não estará aqui para completar a missão de outro ou desempenhar de maneira farsante a estrutura alheia. Aquilo que é meu é dado por natureza e nada que for da natureza de uma missão é capaz de ser tirado ou roubado. Pouco adiantam os choros e as tristezas por que se passa, pouco adianta choramingar, fato é que o início, o prosseguimento e o fim de uma missão é obra oculta e parcialmente revelada a seu protagonista, tanto em sentido extrassensorial como por alguns indícios de que haveria um conjunto divino de coisas a favorecer pelo bem e para o bem aquele ente querido pelas estrelas ou pelo Criador.

Notadamente, brilha uma vez a chama da esperança, depois de tormentas incessantes, sempre a
bonança. Notadamente, rebrilha novamente a esperança, mas de maneira mais concreta, pois por mais que os olhos não divisem progresso algum em uma biografia, ainda de fato é necessário reconhecer que houve muito progresso, muitas conquistas após muita luta, que foram vencidos obstáculos quase intransponíveis e que foram superados de maneira solitária e honrosa e que, se assim foram, os méritos desse Hércules engradecem a obra de toda uma vida. Não é evidentemente o fim de uma missão aqui neste planeta o fim que pretendiam que fosse, mesmo porque a luz que irradia belezas de alma retumba invisivelmente em astros e seres angelicais para a proteção e para a ordem terrena.

É necessário reconhecer que não podem ser postergadas as missões irrevogáveis de uma biografia que tem exatamente tudo para triunfar em honra, sabedoria, experiência, habilidade e principalmente em força. As virtudes do escolhido - e muitos são escolhidos - são as virtudes que muitos em uma análise pobre e cotidiana às vezes menoscabam com risadas e desdém, são essas, contudo, virtudes de extrema pureza e conhecimento. Diante de tudo isso, existe uma consciência tranquila e perspicaz para dizer a si mesmo: "o que aprendi com esse golpe desleal?". Sinceramente, os elementos da sabedoria que encabeçam as alturas estelares começam por desafios ignóbeis. Sim, escrever é bom, refletir é bom, caminhar é bom e a lição é: "ainda que muitos não me gostem, importa que eu seja, em tese, o meu melhor amigo, pois a missão é árdua e quase infindável, há que se ter disposição e uma certa dose de coragem, pois as mudanças são sempre quebras e fraturas existenciais inexoráveis".

De fato, de admiráveis encontros com o melhor que há nessa vida e também com sofrimentos cotidianos é que se forma a conjuntura existencial de um vencedor, mas nada, absolutamente nada, transfere um erro a portador diferente. Não é porque muitos me fizeram sofrer e solaparam minhas alegrias e sonhos que desistirei deles assim prontamente. Ora, seria eu a entregar o ouro a meu pior inimigo? Admitir que fracassei em meus projetos de vida? Ora, como ia dizendo, o que os olhos conseguem verdadeiramente divisar não traduzem a força de uma biografia ainda por se completar. Ao que as provações fazem parte do alcance que poucos podem suportar, pois o sorriso destes seres livres e sinceros sempre machuca quem ainda não tem motivos próprios para sorrir, desata em dor, mas nem por isso deixaremos de sorrir tampouco deixaremos também de prestar auxílio.


Se sou eu a sorrir, é certo que já triunfei perante os fatos corriqueiros do cotidiano, sorrir para nós é essencial, traduz a razão pela qual fomos criados, para ser feliz, para triunfar e completar a missão maior de nossos dias, deixar ao menos um legado, uma boa lembrança, mesmo que tenha sido tudo passageiro como um cometa, mesmo que tenha sido prematuro como em um acidente fatal, mesmo que alguém tenha sido interrompido por uma doença, por uma fatalidade... Agora, se os sentidos reclamam a você algumas atitudes extrassensoriais, altruístas e humanitárias, com toda certeza o que falta é tino, o que falta é reconhecer que a missão é ajudar e se não for para ajudar que a missão seja eterna até que se complete em sua essência mais enraizada e profunda o objetivo para qual foi mandada. O mundo é dos que têm missão programada e a cumprem com serenidade com as mãos estendidas. 

Leveza é essencial: o inverno em BH

Jair Amaral/EM/D.A PRESS
Com um olhar mais detido assistimos às flores rosas do ipês em Belo Horizonte, no florescer, no cair, nos ventos e nas pisadas. O clima de inverno em BH é bem ameno com friozinhos pelas sombras e algum calorzinho pelo sol direto na face, nada que incomode, nada que nos impeça de trabalhar, dormir bem e sem exageros nos trajes. Diante desse frio, alguns ventinhos nos cantos das casas, em nossas idas à rua, é frio bom que para muitos, os friorentos, chega a enrijecer o corpo, mas para aqueles que concentram na vida que isso encerra, é um frio bom de ser sentido, salutar. Com essas rajadinhas, a nossa respiração parece mais pura, alguns ares são úmidos, parecem vindos das muitas águas de nossas Minas Gerais, pela umidade temperada em fontes de vida.

Nesses dias, a água da torneira, mais gelada, possibilita mãos mais limpas, o choque térmico é instantaneamente sentido, mas na assepsia nada mais ideal. Um banho frio ainda cai bem, nas primeiras águas, muita tremedeira, mas aos poucos vamos nos acostumando e isso me faz lembrar de Meaípe-ES, em que as águas são muito geladas, então disse a mim mesmo que era bom tomar banho frio no inverno, mas o inverno mineiro é tranquilo. Em algumas localidades, podemos ver nevoeiros, clima de ficar em casa e comer comida quente. Certa vez passei um fim de semana de junho em Congonhas-MG e foi muito saudável, com todo nevoeiro que pela manhã pudemos contemplar.


Os trajes devidamente nos acalentam, alguns ganham contornos de elegância, é a necessidade do corpo e o porte da alma. A casca vivaz de uma invisibilidade de sentidos. É bom nos vestirmos com o agasalho que vovó tanto nos cobrava. Nas noites mal dormidas ainda observamos janela afora que todos dormem, o frio faz as pessoas adormecerem, mas já por volta das 5:30 hs, aos poucos as luzes dos prédios do bairro Prado e do Gutierrez começam a acender o dia. Aos poucos os ruídos dos trabalhadores matutinos e a chegada de víveres às padarias, açougues e hortifrútis acabam por compor a grande sinfonia da manhã. Pássaros tímidos, mas que depois da aurora estabelecem com o enredo da luta diária uma breve sincronia de vida, momento frio do dia em que, por necessidade, natureza e homem se levantam para a condução da carruagem do destino.

Nada mais leve e nobre do que o sentido da manhã fria de inverno, a leveza dos seres, a culminância da aurora, a simplicidade dos rostos, até que algumas lanchonetes chegam, depois as bancas de revistas, depois ainda o comerciante mais necessitado, para depois tudo que é devidamente preciso sob certas circunstâncias, uma loja de roupas, um restaurante, uma loja de estofados e tudo corre. As mulheres parecem, apenas parecem, sentirem mais frio, mas isso poderia ser só aparência, na observação muito rápida que fazemos. O céu nessa época em BH é simplesmente azulado sem nuvens e por isso mesmo lindo. A natureza se recompõe um pouco nessas épocas de recuo e de chazinhos os mais variados: maçã, mate, erva cidreira, camomila. Abraço o mundo com meus sentidos invernais como se estivesse me vendo de fora para dentro, como um que vivesse nessa atmosfera vital como todos os outros. Lá de cima eu me vejo.

Os dias de inverno em BH não são todos iguais, na Zona Sul com toda certeza e na aproximação com Nova Lima-MG mais frio há, na aproximação com o Centro menos frio. A altitude varia entre 850 metros aqui pelas cercanias do Prado e Centro até cerca de 1000 metros na região do BH Shopping. Naturalmente que os antigos sempre afirmam que em virtude de alguma urbanização sofrida pela cidade após a década de 60 que o clima mudou radicalmente e os dias de inverno de BH pouco lembram aquelas priscas eras. No entanto, nestes dias pude sentir e ver 11 graus centígrados com desfaçatez, na Zona Sul sempre um pouco mais frio, talvez 9 ou 10 graus. Ao que tudo isso não passa de dados e de lugares, o principal é que a vida é recheada de estações e também de fases, fases previstas e imprevistas. Importa ser um observador da sazonalidade e de seus ciclos, ao que estamos ainda muito novos para aprender.


Leveza em tudo é essencial, nos dias de calor pouco ou muito pouco paramos e pouco observamos com cautela os giros do planeta, o nascer do dia, a mudança nas faces, tudo ocorre muito rápido. Assim, no frio, é possível caminhar com mais vida e concentração no olhar, é possível ver e viver em noites regadas com esperança. Não há, contudo, espaço para estragos e para auras e ideias pessimistas, é necessário sobretudo adquirir a serenidade das estações baixas, pois, se é para aprender, a natureza será a nossa grande conselheira e mestra. Venta, corre assobiando, ventila em recantos e cantos, zune, folhas lindas de ipês rosas, praças em seus contornos mais retificados, ruas menos agitadas, corações mais abertos à conciliação. Enfim, leve como uma pluma, assim é permanecer em si e junto com a natureza, a frialdade é o limiar do progresso e da eternidade.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A antiga casa: a verve poética memorialista

Retrato de Família
A família se restaurava com lombo ao vinho branco, com discretos legumes picotados, bem discretos. A feliz família naquele ano incerto era unida e Chopin ao fundo traduzia a harmonia familiar daquela noite. Como acompanhamento, rúcula, pirê de batatas, arroz, abacaxi assado e outras coisinhas. A mãe de família responsável pela trilha de Chopin já iniciara um de seus lindos filhos na arte do piano, tendo comprado um piano vertical confeccionado por madeira com acabamento e brilhos de boa empresa e fazenda. A família versava nessas restaurações à mesa, comia fartamente, sempre sobre assuntos da alta cultura, muitos de seus convidados quando os tinham à mesa, sentiam-se muito constrangidos, pois além de alta gastronomia, muita cultura inacessível aos circunstantes lhes deixavam sempre constrangidos.


Fato é que a família e a casa subsistiram por muito tempo em seus grandiosos dias, sempre reclusos em seus domínios, eram felizes, pois cada um a seu modo, divertia-se ora com livros da alta literatura, ora com planos de alto capital na área de engenharia e tecnologia da informação, ora no trabalho de gestão pública e empresarial. No entanto, os dias áureos se foram de maneira trágica, mas os contornos austeros da estirpe desses meus conhecidos jamais, a elegância sempre fora natural e forjada por altos estudos e boas convivências. A alegria do convívio com gente ligada à arte, com gente certamente saudável, deu-lhes durante tempos mais refinamento e força diante de uma sociedade pouco alavancada intelectual e socialmente. Era sempre uma reserva que tinham de ter por conta de serem eles uma família sofisticada. 

Os dias de declínio começaram com a perda de um ente, com os matrimônios dos filhos, com a separação do casal que era o sustentáculo daquele modelo de família invejada, cristã e fortemente amparada pelo melhor círculos de relações possíveis. As alturas que estes trafegavam eram dignas da mais alta conta e incomparáveis, ao ponto de estarem sempre flutuantes diante de todos à sua volta, alguns até lhe faziam alguma penumbra, mas jamais algo que ofuscasse a naturalidade com que procediam rumo à genialidade que desempenhavam no corpo a corpo laborativo e também na prática de bons costumes.

Era uma família perfeita, até que a limitação imposta pelo corpo e pelo que há de terreno em nossa existência pôs fim à perfeição ostentada. No limiar da eternidade áurea se viram, mas por um lapso foram jogados à sarjeta emocional como que de repente e injustamente. O mais triste que se pode haver é a ciência que se tem das coisas. Em um momento, os olhos azuis brilham, o sorriso largo invade a tudo iluminando a todos na normalidade de pessoas felizes, mas as notícias e os acontecimentos de tão inacreditáveis derrubam a alegria certamente como se o significado da vida lhes tivesse sido arrancado de chofre.

A família prosseguiu sua sina, consequentemente espalharam-se pelo mundo, dotados de grande estilo, dotados de grande capacidade de produzir o melhor para o corpo social, fazendo e realizando proezas e obras lindas para a humanidade. Souberam constituir novas famílias, souberam encarar a ausência, mas sempre cientes de que esta ausência não significou nem significará uma perda real, pois as projeções do que este ou esta poderia ter sido se não tivesse falecido é implacavelmente real, ele ou ela realizaria tal feito se estivesse em tais e tais condições e, nesse caso, nessa família, o ente perdido é o modelo pelo qual se espelham e se veem representados aqui e além morte.

Pieter Claesz

Entre taças e talheres e cadeiras, entre manhãs límpidas, tardes que caem, dias após mais tantos dias, enfim correm as horas imorredouras e desaparecem personagens e aparecem outros, mas o fantasma pessoal ressoa como boa memória, como em letras poéticas de verve absolutamente literária está restaurada a obra da pessoa em sua composição corpórea, sonora e sensitiva. A poesia pode vir de memórias e de afãs, mas muito mais da montagem de letras é que se compõem as formas e os contornos e os traços de alguém que se foi, que partiu sem mais delongas, com o episódio duro de ter cravado na obra dos viventes sua insígnia mais dileta na vivacidade das lembranças, esta é a memória contada por letras, letras luzidias, eternas.

domingo, 22 de maio de 2016

Carta de D. F. O. C.

Embora a névoa não reconheça desde já a imagem profanada, aqui estou reconhecendo de mim para mim e de mim para o universo que fiz a minha parte nesta vida. Por muitos momentos pude ser feliz porque percebi que me alinhava muito mais com a eternidade do que com a efemeridade, mas infelizmente nem todos que estão ali e aqui a minha volta, em meu entorno, concordam com tudo isso. Fui uma excelente pessoa enquanto pude viver, procurei ser feliz sem prejudicar ninguém, procurei realizar o melhor de mim no trabalho que fazia, procurei com muita força excluir de minha vista e de minhas memórias todas as afrontas injustas que sofri e no calor do dia procurei não verter lágrimas e se verti não fui devidamente percebido nisso. Por tanto sofrer, tornei-me menos sentimental e mais racional, não esperei mais nada de mais ninguém. Amei também as mulheres que pude amar e amei enquanto fui compreendido, mas até mesmo estas me traíram. Que foi que eu fiz? Nem sei ao certo, mas existir é a pena mais dura que se pode ter depois de tentar existir, mas perceber que tu és indesejado na existência é um tanto mais doloroso, mas cumpri com minhas obrigações.

Entretanto, existe uma verdade que beira a eternidade, a convocação para a existência, o nascimento e o fim de nossa jornada estão profundamente concatenados em mentes arranjadas e superiores. Não é o desgosto pela vida que me permitirá despedir-me agora e me despedindo com desculpas não me fará partir só porque desejo. Na verdade, em certos momentos de nossa vida mais real, de nossa vida mais vista e menos fantasiosa, percebemos a inutilidade de certas coisas, percebemos que realmente muitas das ilusões infelizmente se perderam, cederam à verdade inenarrável. Aliás, não ser bem sucedido na vida não credencia desde já ninguém à infelicidade, não ter sucesso pode ser o início das reflexões mais cristalinas que se podem ter e ouvir de si mesmo. É com grande pesar e com grande sinceridade que confesso ter sido mais infeliz do que feliz, mas com toda a humanidade que pude ter declaro ter sim feito a minha parte. Do que pude e do que não pude, eu realizei atos prodigiosos. Até enlouqueci com nobreza, com caráter, com uma certa dose de elegância.

De todos os atos que tive e obtive, de todas as louváveis peregrinações, talvez a maior delas tenha sido caminhar nos rumos mais sutis de meus relacionamentos familiares, a família não é uma instituição formal e de papel, a família é um elemento da espiritualidade mais forte que se pode crer, ver e viver. Se a família cai, o homem cai; se a família sofre, os justos pagam. Não há, contudo, culpa de ninguém, ninguém é culpado pelos atos do portador do ato em si, se você não obteve o sucesso que suas professorinhas assinalavam na escolinha Estrela Dourada é porque alguma coisa em si mesmo e dentro de sua cabecinha já ia errado, já andava errado. Decerto, a humanidade de uma pessoa deveria valer muito por aqui, mas em nossas relações, em nosso dia a dia, percebe-se que não valemos muita coisa. Assim, sair desta casca corporal que visto hoje é algo que não ajunta muitas preces nem muitos cuidados, verdade é que ninguém se importa com quem não oferece alguma coisa, a vida é uma barganha tola e ácida.

Espero, todavia, encerrar meus dias e cerrar meus olhos tendo a possibilidade remota de ter algum amigo extemporâneo, algum amigo ou alguma mente cristalina lá dos altos céus, lá desde as letras estelares, lá desde os céus infinitos que fazem diretamente suas preces aqui. Se realmente os lados obscuros da existência tiveram a ousadia de procurar ferir-me, digo desde já que muito mais luz irradiada pode sair daqui do que se pensa, do que se cogita, daquilo que se pretende falar, dizer, pensar e julgar em mim sem sequer me conhecer. Eu lamento a pura ignorância das gentes que sequer puderam conhecer uma figura extraordinária e conhecer de verdade suas qualidades mais legítimas, eu lamento que tenham que se contentar com a fagulha ligeira que foi minha existência, com a fagulha que pouco revelou de seu ofício celeste. É, pois, imperioso que os maus ainda me divisem em minhas jornadas etéreas, se os tiranos me fizeram sofrer, se os corretos desta terra, se as mulheres mais indignas me massacraram, se os amigos mais infiéis se infiltraram, se a ingratidão foi o refrão de suas ações, sinto informar que do outro lado da vida serão devidamente cobrados.

Deitado estava, recostado, amplamente desiludido, deitara-me e algumas palpitações foram enrijecendo minhas pernas, meu peito doeu, minha cabeça parou verdadeiramente de funcionar, vi-me vendo o dia clarear e ninguém a me acordar, não sentava, não equilibrava, mas também não queria me elevar, levantar-me, estava mesmo era gostando da morte, estava mesmo era degustando o raro prazer de não ver e de não ter de encontrar com ninguém desta terra aniquiladora que me recebeu mal, que me aquilatou mal, que me tratou mal e que me bateu, agrediu, feriu. Terra ou província que me deixou amargurado e só no alto de meus anos, no alto de minhas experiências, que alongaram meu sofrimento que provinha ora de fontes moralistas e benignas ora de nascentes pantanosas da acusação de quem deseja mal. Encerro meus dias como se cerrasse uma porta. Fecho minhas saliências e alegrias como se retornasse com os lábios ao sem sorriso. Enjaulo-me na caixa marrom do sepulcro como se ali nada estivesse e que nunca esteve em lugar algum.

domingo, 15 de maio de 2016

Despedida aos 90 anos

Eram trinta feijões contados na mão do adolescente que dizia:
- Vovó, quantos feijões têm aqui em minha mão?
- Uns trinta.
De fato, ela acertara e acertara quando dizia: "vou viver até os 90 anos".
Isso me preparava muito diante de tanto amor que eu sentia pela minha vó.

Tudo que eu sabia fazer até então era ajudar meu grande pai e cuidar de alguns afazeres domésticos. A escola era coisa primária, aprendi a desenhar as letras, mas como li muito durante a vida pude conhecer muitas histórias de amor e muitas histórias de família. Embora eu fosse casada com um homem que de fato eu nunca amei, tive devoção inaudita a meus filhos que eram e sempre foram tudo para mim e até agora são. Prestado o auxílio, creio que agora estão melhores. Vieram e sobrevieram dificuldades, muitas delas vindas em dias em que não se poderia pensar que estivessem ali prontas para dispersar a nossa paz. Muito mais coisas ruins ocorreram naqueles dias que poucos saberão ouvir e mesmo ter ciência. 

Na verdade, nestes dias mais complicados é que a chama divina parecia chegar. Sempre uma imaginação mais positiva, sempre uma ideia mais acesa vinha e o milagre e a providência divina socorriam nossa família. Sempre uma rajada interventora chegava e adentrava nossas tristezas escuras e as iluminava instantaneamente como se escoltados sempre estivéssemos.

Na casa, porém, todas as decisões eram tomadas pelo meu marido, tudo que se havia de fazer era ele quem decidia, cabia a mim escaldar panelas e mais panelas de água quente sobre arroz carreteiro, sobre galinhas, sobre tudo quanto era comida.
Por Elisa Levien da Silva
Eu me tornei o mestre-cuca da família, desde tempos antigos quando vinham garimpeiros esfomeados até quando vinham em minha casa outros esfomeados à cata de farelos. Disso ainda muita ingratidão foi colhida. A família nunca soube separar aquilo que era nosso daquilo que realmente era do outro, acomodamos muita gente e aclimatamos muitas pessoas, o que era ousadia para uma família pobre. Um costume que nos custou caro no fim da vida. Deveríamos ter cuidado mais dos nossos bens patrimoniais e fechar a porteira.

Tive a alegria de ver netos e de vê-los crescer, pena é, bem verdade, não poder ter dado a eles melhor coisa do que tiveram, alguns deles, tristeza, ainda sofrem pela obstinação e teimosia de outros. Hoje, sem muita esperança ainda caminham tentando e apalpando a luz. Sim, eu sei quem és e só é possível perante o amor. De tudo, porém, é necessário que a paz reine nestes dias intempestivos, para o que der e vier. Assim, destes netos lindos que tive, todos à sua hora e maneira irão partir. Como se não bastasse o desgosto da separação em vida, agora também a separação em morte. Mas muito mais do que estar em vida, melhor é estar por aqui, nestes lugares altos e lindos e repletos de sonhos realizados. Verdade é que saudade é coisa dilatada e chorosa.

As costuras realizadas, os confeitos fabricados, as balas de rapadura, nada disso é enredo melhor do que a geração e o crescimento de uma vida. Nada, nada que esteve de melhor nessa vida é melhor do que a doce companhia de meus entes queridos, estes que neste momento me fazem tamanha falta. Alguns se extraviaram, alguns foram a outros sítios, mas os que aqui estão me recebem como se me conhecessem tanto melhor do que se poderia imaginar. Ainda impactada com os rumos repentinos da velhice, ainda impactada com a rapidez da descida e da queda, fico aqui matutando o que teria ocorrido realmente nos tempos em que a lucidez me abandonara. Enfim, de fato, posso ter cumprido o meu dever, mas tudo me leva a crer que poderia ter sido melhor, fiz o que pude e o que não pude, fiz o melhor que considerei a cada ato e se tive desavenças foi para a proteção de minha parentela.

Por Chris Goldberg
Prezei muito pela falta, pela ausência de entes queridos durante quase toda a minha estada nessa terra cansada, hoje sinto falta de uma outra metade de minha vida, da metade viva que me falta morta. Queira Deus ter a alegria de ver e de assistir a meus entes queridos progredirem na paz maior de felicidade alcançada, porque de sofrimento e perdas já me bastam pelo de agora. Fico com a fala maior portadora de luz: "vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei". De sorte que por muito viver muitas histórias teria, mas a limitação que minhas lágrimas me impõem me restringem seguramente a me deter por aqui. 

A vida é uma passagem muito saudável, muito curta porém. Não basta, ainda, querer fazer dela uma avenida em que se pode estacionar a cada rancho novo, não é bem assim, a vida é mais uma correnteza forte que nos leva conforme as águas do dia, conforme temperatura, ventos e ideias do divino. Não se pode brincar com o retorno, não se pode retroceder em oportunidades tampouco desdenhar dos presentes, mesmo os seus maiores inimigos, pois a situação sempre pode piorar se você não se tocar a tempo, pois a água corrente é traiçoeira quando o distraído se coloca a dar suas braçadas livres e ingênuas.


sábado, 14 de maio de 2016

O pulso estelar

Dilatado pelas ondas o pulso estelar vai percorrendo mundos, submundos em sóis e gases hélio, hidrogênio, enxofre, em luzes radioativas, em feixes luminosos ultrapassados por cederem ante sua própria finitude existencial. Profícua e imanente repercute a imagem, o som, a luz, como em medições gravitacionais de entorno, assim urge nas imensidões infinitas todo o conteúdo da mensagem, em sutis labaredas formadas por palavras ditas e ao mesmo tempo mortas. Compassadas na humildade da razão pelo próximo, sente a vida em pontos equidistantes do espaço como se cada mundo tivesse o seu som bom ou o seu som mau, como se e de fato todo o mundo emitisse choros ou concórdias benignas. Assim, o pulso de quando em quando e pausadamente bate sonoramente na mente e as palavras soam e chegam, entrevistas pela magnificência de seu imperador falante e flutuante de ondas distantes. A rádio mental e o receptor e o aparelho captor. Sim, o aparelho captor.

Sorrisos noturnos invadem os visíveis habitantes destas terras ainda devotadas, sorrisos noturnos não compreendem jamais como poderia e se seria possível que apenas uma pessoa tivesse em si uma gama infindável de palavras. Como poderia um aparente brasileiro raso ser poeta? Não, de fato, fruto de muitas leituras nem ele mesmo crê que está transmitindo mensagens d'além, ele crê ainda em literatura. Mas não estamos aqui para falar dele, estamos aqui para falar dos pulsos espaçados tais quais sílabas divinas e luzentes. Sim, desde as Plêiades chegam sonoros e estrondosos entes invisíveis, infalíveis, críveis e inacreditáveis. São momentos como esse que o homem se desdobra desde uma pessoa para outra pessoa e assim sucessivamente como se pudesse ser muitos em um somente.

No horizonte está a luz da cidade que festeja sua alegria pelas calçadas da riqueza, o centro desta grande cidade ainda é próspero, alegre, feliz, o que não seria se d'outros mundos ainda aqui chegassem luzes eternas do Criador, do audacioso Criador do Universo, aquele que tudo sabe e que tudo vê? Desse modo, no exercício criativo da palavra as mãos se movem pelo teclado tal qual autômatas, é surpreendente e inacreditável. Subitamente nesse espaço tornar-se aprazível o astro que digladia com cavernosos e ignorantes, alcoviteiros de má fama. Deixe estar, ao que de luzes se faz o astro, ao que de maneira diversa e diferente ele é conferido em faixas de DNA modificadas dia após dia como se sobre-humano se tornasse a cada desejo, a cada escrita, a cada mentalidade.

Não é possível contudo deixar de ter uma mentalidade alta, dirigindo-se ao próximo como se dirigisse a si mesmo, sempre dando de comer aos pobres e carregando idosos em beira de abismo. Sendo um bom pastor das gentes que merecem porque não têm absolutamente culpa nenhuma daquilo que o destino impôs. Se o destino impôs choro, é necessário o apaziguamento; se o destino impôs alegria, é necessário o compartilhamento da fé. Desde longas jornadas o pulso desce escaldante para apalavrar as coisas. Assim, apalavrado pelos pulsos sonoros de ondas distantes e de estrelas vivas e de estrelas mortas, mas viva em luz, chega a todo tempo a ideia generosa de amor. Não é possível contudo prever em quais e quais dias estaremos prontos para receber as ufanadas mensagens. Ora, só é possível escrever em momentos de solidão e assim o destino me conferiu momentos de solitude, dolorosa demais, mas nesse rigor é que me trato por escrita.


Palavras lindas de paz proclamo a todos que desejam o melhor para os seus, palavras solares distantes de muita fé para o planeta azul, de lua benta, qualificada na sua estatura, assim estamos absolutamente cobertos até a borda do impossível da maior felicidade que se pode ter: desejar boas coisas ao próximo. Ainda que não permaneçamos correndo como crianças e meditando como adultos, as letras jamais se apagarão, pois é por feixes luminosos de luz e por pulsações mensageiras é que todas elas ganham vida. O livro fechado está morto, o pulso de lux sem o seu captor fica inutilizado, mas quando surge um que seja se esboça um sorriso ditoso e maravilhoso. Pax!

terça-feira, 3 de maio de 2016

Acontecimentos Inevitáveis: a rota da simplicidade

Fotografia por Paulo Infante em Flickr
Ao longe a luz irradiada do astro nos faz evitar a vista, pondo a mão à frente para melhor compreender que desta estrada de terra, se ao fundo vemos a luz é porque para lá estamos indo e se inevitavelmente colocamos a mão é para não perdermos o passo arenoso. Gravetos pulam com pisadas em suas extremidades; outros, sem a mesma sorte, partem-se com o piso certeiro, as folhas secas até voam com pequenos sibilos e ventinhos que a natureza daquele cerrado felizmente impôs. O andarilho da vida percorre a pé e não em moto, percorre na aurora e na visitação dos calos uma trilha que leva ao mercadinho das verduras, passando pelo rancho, passando pelo cafezinho da padaria simples e cheias de biscoitinhos de polvilho.

O caminhante chega enfim ao lugarejo, à vila logo cedo, tendo andado desde à noite e tendo tido a primeira visitação do sol logo na face, então ele se assenta e pede um café e cometa: "noite mal dormida, vento entrelaçado com a porta, panela caindo, porta assobiando, eita noite de outono brabo, esse ano como de outros vai se fazer um sarrafo de frio e umas pontadas na nuca de estreiteza com a morte, eita noite alta, de lua alta." A caminhada pela estrada lhe fez bem ao ânimo, podia ter usado a mula, mas foi no andar da dúvida, querendo resolver a cabeça. Até que ao ver a gente toda igual antes fez-lhe muito bem às memórias, fez-lhe muito bem ao pânico de sua ansiedade e de sua toda vacilação possível. Sentia que de uns tempos para cá alguma situação fora de seus domínios de ideia fosse ocorrer. Pensava com amargor e muita tristeza que a normalidade e círculo lhe fugiam, imaginava que a repetição das felicidades se apagava a cada ano rodado.

Cumprimentou muitos dos seus, mas como de costume deu pouca conversa, pois estando já o sol pelas 7 da manhã, não poderia demorar-se muito sem que a família desse falta do pai, do avô, do homem de muitos afazeres. Uns lhe chamavam de senhor; outros, com inveja caluniadora, de pão duro filho de uma égua. Fato é que aquele senhor sentia dentro de si que tudo mudava. Rumou na volta à casa, levando consigo a mandioca, uma galinha bem velha e viva amarrada na sacola, a cachaça, a farinha e levava também um pote de banha para fabricação de sabão e um pouco de açúcar para adoçar as manhãs e as tardes com mate e com café. Quanta visitação de ideias lhe instava o pensamento. Pensava que alguns acontecimentos eram inevitáveis como a própria morte fazendo careta de madrugada.

Por Alb Maq em Flickr

Chegado à matriz rural em que aprendera a viver diante de tanta rachadura de mão provocada por roça, chegado com as sacolas e muito suor na testa já às 8 horas e alguma coisa, ele se alforriou na rede, pensou muito, acendeu seu fumo, mastigou bolinhas de ar na boca falida, imaginou que ia fracassar daquela estação em diante, que não ia ter mais milho para distribuir, que não ia mais ter lenha para queimar. No entanto, esse pensar passou de leve e se foi embora na mesma medida, pois naquele sábado era dia de gente forasteira comer e pousar ali em seu lugarzinho simplório. Eram visitas de moças soltas na vida, de pai falecido e com parentela distante com sua madrinha que não tinha nada a não ser conversa fiada, mas muito altruísta ajudava pessoas.

O homem campesino fartou-se nesse sábado da boa cachaça e de uma carne seca que estava lá à espera de proveito melhor. As cinco garotas chegaram e ficaram de início tal qual bicho do mato, mas aos poucos puderam sorrir com a criadagem simples e os moleques do lugarejo. Tudo isso não sem antes rezar na capelinha improvisada um concurso de rezas alternadas. Fartaram-se à boa, suco havia, brincadeiras, todas. O dia foi caindo pelas imediações do mesmo lugar onde fonte divina de luz lhe atingira, o dia não estava mais amargo e tudo não passava de pensamentos ruins que brotaram para lhe tirar o sono, sem mais nem menos. 

Ora, alguns fatos estão por vir mesmo, tudo irá realmente acontecer, o mal e o bem, mas não necessariamente irão acontecer conforme a vida que passou tinha mostrado. A decadência das horas e dos dias, os maus agouros nem sempre superam a ordem da divindade, pois na mesma medida que temos de morrer e deixar seguir o curso natural das coisas, a normalidade implantada também pode seguir com naturalidade. Assim, tudo não passou de um mal estar, pois as coisas haverão de estar encaixadas, amanhã pode ser que o dia amanheça melhor, pode ser que sejamos acossados ou acometidos por enfrentamentos, mas certamente o que está escrito está plantado. É natural que alguma insegurança cresça dentro da gente assim com começo de choro, mas é sabido que também o que é nosso está devidamente guardado, ainda que a caminhada da manhã tenha sido esquisita.

Depois de muito ajeitamento para receber as visitas todos puderam compor a felicidade de si para si e de si para o próximo e o velhote ficou matutando se não estava ficando louco com tanta gente rindo à beça, pois os mais moços traziam vinho a tira-colo, coisa que não devia faltar. Mas o velhote aqui ficou querendo chorar, mas absolutamente consolado por estar em seu lugar, recebeu às devidas reverências de todos os circunstantes, mas não descansou do embotamento do coração, não descansou enquanto não concluiu: a trilha da simplicidade nunca sofre ataques. Os acontecimentos ruins podem vir e sobrevir, mas o dia de amanhã é o sábio capaz de me assegurar que estou onde sempre estive: seguro como o Criador quis.

Matuto: canção do homem simples