domingo, 20 de novembro de 2016

A eternidade de um encontro


Ela nunca havia pensado nisso seriamente, nunca havia de si para si se imaginado presa de emoções novas. Ele, por seu lado, muito introvertido, seriamente compenetrado em sua profissão, pensava em mulheres com muita insistência, mas com resistência, medo talvez. Ela, com seus cabelos ao vento; ele, com sua barba de costume. Ambos não tinham sequer condições espaciais e temporais e circunstanciais de vivenciar um amor. Eram distantes. Eles jamais se encontrariam, mas todos imaginam que encontrar um grande amor seja uma coisa mágica, todos têm para si que este dia está devidamente marcado, assinalado. Ela, com seu olhar de dominadora; ele, com seus anseios de progresso. Irão se unir em suas respectivas sedes para que o encanto feminino enlace toda a seriedade dele, erétil. Ela, leve como pluma, esvoaçante, de beleza cortante, ele jamais alvejado, atingido, muito firme e sincero em seus propósitos.

Ao cabo de um dia estafante, ele ao volante decide parar em um posto de gasolina e comer alguma coisa para saciar sua fome de horas a fio em seu escritório, em sua firma. Ele pouco comia fora de casa, era comedido, sinceramente econômico, mas naquele dia em especial pensara em um lanche rápido. Ela, por seu lado, um pouco desleixada com seu carro, em um congestionamento, vira seu carro ferver, havia até se desesperado, ligava para seu pai que sequer atendia o telefone. Parara no posto. A fumaça subia e por detrás dos óculos equilibrados dele foi vista com um certo embaraço. Ninguém a socorria com a dignidade que uma mulher maquiada e de saias pedia. Ele ao primeiro passo já lhe sentira a beleza, a produção, estava descalça. Dirigia descalça porque usava salto, vira os pezinhos femininos mais lindinhos.

Saindo de seu lanche já saciado Eros parecia encomendar o encontro do aquecimento do motor com o aquecimento das emoções. A fome dele era para ela o destino certo e a necessidade dela era para ele o encaixe perfeito. Ela, com seus cabelos soltos estava trêmula; ele, com sua experiência cavalheira, ajudara a arrefecer o motor e a alma. Ele, como seus altos olhares se curvava diante do espanto, via as pernas lindas e lisinhas dela. Ela sequer percebia que aquele homem era belo e atraente e que talvez ele pudesse ser o cara do encontro. Arrefecido o motor ela se equilibrara e ouvia com calma as palavras de amizade de um homem cortês, vestido em uma roupa social e de sapatos pretos impecavelmente engraxados, mas sem aliança no dedo, o que ela percebera.

Ela não havia pensado em amigas, nem em família, apenas no pai, mas do pai se esquecera, porque parecia ter encontrado um amigo que dali em diante a iria conduzir para dentro para lhe oferecer água. Ela aceitara pois era muito tranquila com homens, achava-os amigos e não tinha birras femininas com eles. Sentara-se no banco do carro, pusera os saltos, que deixavam à mostra aqueles lindos dedinhos de pés. Ele pensara que se limpinhos estavam daquele jeito, imagina o restante desse corpo lindo. Ela, com seus seios redondos e com biquinhos à mostra. Ele, avolumado na calça preta que vestia, tinha um lindo relógio prateado. Entraram, ele pegou a água e lhe deu. A bateria do telefone dela infelizmente acabou. Ele oferecera, ela não havia aceitado, disse que não era tão importante.

Ela,  muito alegre, agradecera ao gentleman; ele via diante de si, como poucas vezes, uma mulher linda. Ela, em dúvida, disse que temia que o problema ocorresse novamente; ele, prontamente, disse que ajudaria quantas vezes fossem necessárias e disse para que ela se precavesse. Ela sorriu. Trocaram os números de telefone e cada um a sua maneira partiu, trocaram os últimos olhares. Saíram, ela ainda tropeçou com seu salto no piso irregular daquele posto, ele ainda a segurou pelo braço, abraçou-a, sentiu seu perfume, sentiu sua maciez. Ela, por sua vez, se sentiu subitamente enlaçada, fazia tempos que não saía de mãos dadas com homem algum, estava solteira e mal assessorada por amigas infiéis. 

À noite ela ligou para ele, ele se assustou, mas se lembrou da voz um pouquinho rouca dela e que lhe causou espanto. Eles ainda conversaram por dez minutos sobre carros, ela lhe contou que os seus agradeciam pela gentileza. Ele havia dito que aquilo não era absolutamente nada, que coisas como essas ocorrem mesmo. Ele ainda deixou claro que se houvesse qualquer problema, que ela ligasse a qualquer hora. Incomodados de si para si sobre o amor, jamais imaginariam que esse incômodo era o inconsciente trabalhando para lhes favorecer. Ele estremeceu de tesão, ela dormiu naquela noite pensando nele. No outro dia ele ligou para ela, falaram já sobre suas vidas pessoais. Ficaram nisso dias, começaram a se falar por redes sociais, pela internet e por meios mais ágeis. Hesitaram muito durante muito tempo. Um desconfiava do outro sobre aquelas conversinhas com curtos prazos de interrupção, desconfiavam se um não estava gostando do outro, era um sentimento gostoso à beça, e de uma alegria jamais vivida, repleta de saudades e de vontades.

As flores da primavera rompem pelo alvorecer, os pássaros cantam, as pessoas acordam, estão a caminho do trabalho, não sabem ao certo o que virá pelo dia, mas sabem que será difícil. As músicas tocam em todas as rádios, o romantismo está no ar. Decidem se encontrar nesse dia para almoçar porque gostaram muito da afinidade que tinham em suas conversas, ambos era livres. E por que não? Trabalharam naquela manhã contentes, era notório para quem os conhecia de que havia uma afeição e uma vontade de amar. Ele se vestiu como o de sempre; ela, naquele dia, impecavelmente com cores neutras e água de colônia, era dia. Era necessário simplicidade e transparência, mas o decote não deixou de fazer exibir e a saia não deixou de por à mostra as coxas lindas dessa dama.


Ele chegou primeiro e esperou como pôde. O encontro foi o início de uma grande amizade e nem sei quantos dias se passaram até que o encontro noturno sobreveio. Riram muito, tomaram um vinho chileno e comeram massas, estavam vivazes. Beijaram-se. E ainda perguntam por aí como tudo aconteceu. Ora, como aconteceu? Tudo muito naturalmente e provável. E para dizer que não estou mentindo nos primeiros encontros falaram muito da situação do posto de gasolina e sempre quando passam por lá lembram da boa coisa que surgiu de um lugar improvável. Ele, sempre apaixonado pelo cheiro dela; ela sempre apegada ao bom sexo dele, à elegância e ao seu jeito cortês de ser. Não pensam em casamento, não pensam em nada por enquanto, por ora pensam em ser felizes quando juntos, felizes de verdade. Nus, vestidos, socialmente, de toda maneira um é livre ao lado do outro. E quando lembram daquele dia fatal dizem consigo mesmos "em um dia estafante ainda é possível encontrar a felicidade, basta olhar para o lado."

sábado, 19 de novembro de 2016

Mulheres: beleza, desejo e sexo


Os olhos, a expressão mais pura da alma; os contornos labiais, a definição de firmeza. A beleza é em si mesma uma entidade, um conceito que beira o inexplicável. A atração física, a paixão, hipnotizante vista havida, nascida no seio do inestimável, na conta dos incontáveis. Afinal, a beleza tal como a queríamos machuca, ofende e, então, indago: essa pessoa tão bela é também humana a ponto de me enxergar? Existe, enfim, uma ligação entre aquilo que vejo e a correspondência divina entre mim e aquela beleza? Certas belezas femininas são ultrajantes, são dilatadas, são imensas, fico pensando se eu não estou sonhando e se tal pessoa poderia em algum momento de minha vida ser minha. Perda total de tempo, caro amigo, simplório que és, singelo e pouco vivido que desempenhas. Terias de ser protagonista, mas não és. 

Por que então a beleza é tão cara? Digo francamente em termos capitais. Por que a mulher bela exige
Por Vladimir Volegov
que o homem seja devidamente rico? Ora, nenhuma mulher que se preze tem por dom e naturalidade ser companheira e empregada de um homem, ela nesse caso estaria contrariando sua natureza. Ela pode ser companheira por ser humana, mas sua vocação tende para outro lado, o que ela quer mesmo é a felicidade. Que felicidade seria essa? Creio que toda mulher se esforça muito para ficar com um homem que lhe traz sobrecargas. Diz que fica por amor, mas o amor para a mulher tem outro sentido, o amor para mulher é um conto de fadas. Logo ela se cansa desse homem enfadonho e parte para outros rumos mais interessantes.

O fato é que fico consternado e embasbacado com algumas belezas femininas, fico pasmo e observo com muita clareza e relevância todo aquele encanto, pergunto-me também: de onde vem tanto encanto?

Os homens realistas tais quais eu e muitos que se enfileiram em suas mesmices e manias, estes não tem par com elas. Elas, as muito belas, são feitas para nos incomodar, para nos fazer mudar de postura. É preciso um pouco de audácia também. É mesmo uma guerra, a guerra silenciosa que travamos todos os dias pela sobrevivência e nessa guerra temos a conquista do amor e a conquista de uma linda mulher que nunca chega, a mulher digna de nos fazer nascer um herdeiro. Sobreviver é reproduzir, mas a mulher tem que ser prazer ou o prazer que esteja fora da mulher já lhe retira o status de mulher. Mulher é beleza. Então os olhos verdes, os contornos faciais, o olhar mais sério, mais correto, mais preciso, sim, este olhar é provocante.

Quando falo de beleza feminina, não falo como eu, falo como uma personagem escritora, um ser de
Por Vladimir Volegov
papel, não me venham associar aquilo que escrevo com minha vida, isso não tem nada a ver.... Temos, nós, homens, a nossa beleza também e uma delas é ser direto e com requintes de humor, para não dizer que também mentimos. Mas então todos somos caveiras no final, mas os adornos sempre nos transformam em seres quase celestiais. A mulher é humana como todas, como todos nós somos, mas então vem as sobrancelhas, o cabelo, os pelos, o contorno das pernas, do ventre, a barriga descendo, as coxas subindo, as saias encaixadas na bunda, o perfume que deixa o rastro do cheiro de seu sexo. O perfume melhor que uma mulher tem está na sua genitália.

Primeiro imaginaria o olhar, depois o som da voz ecoando como pedido e como arremate do acerto daquilo que todo homem mais sonha em ouvir de uma mulher que ele deseja: você mexe comigo. E quando mexemos com uma mulher, mexemos no seu prazer, descobrimos alguma coisa dela, mas a aprisionamos em seis anseios. Ela não se torna totalmente livre enquanto nós não formos dignamente trocados. Eu gosto de mulheres bonitas, safadas, gosto de mulheres francas, para ser safada não precisa ser puta, a mulher tem de ter cumplicidade com o homem, ela tem de gostar de estar com ele e ter a liberdade de estar nua e entregue com toda sorte de caprichos e sutilezas libertárias. A mulher tem de se sentir bem a nosso lado.

Por Vladimir Volegov
Mas como eu ia dizendo, existem certas mulheres e certas belezas que jamais iremos atingir, ficaremos babando pela mulher, escravizados por olhá-la e não poder possuí-la. Tendo às vezes que fechar os olhos e masturbar com carinho, pensando como seria o paraíso e como seria bom gozar com ela. Loiras, o encanto mágico; morenas, a sedução implacável. Negras, a fonte da vida, a vivacidade. As gordinhas, muita meiguice. As magrinhas, muito malabarismo. As ruivas, muito contato e muita sede. As novas são sempre belas e todas me agradam. As mais de idade, desde que sinceras, as amo. As loucas, desde que sábias sexualmente qualquer loucura fica superada. As carentes, com todo carinho, com todo afeto, tratamos delas. As falsas, se tiverem beleza, aceitamos suas mentiras. As putas, autoridades no assunto, têm todo meu respeito. Todas elas, para o sexo nasceram, porque provocar uma ereção em um homem em situações cotidianas somente para as naturalmente provocantes, não são todas. Há mulheres que só de estarem presentes modificam nossa estrutura.

Eu amo a beleza das mulheres e sinto falta de não poder ter todas que eu pudesse ter, por isso ainda não conheço todas, por isso as que amei amei pouco e ainda por cima fui trocado, rechaçado. Este é um escrito em que peço desculpas por não ter sido melhor, mas um escrito em que faço uma confissão: não consigo lidar com mulheres belas, elas são absolutamente maiores do que eu, melhores do que eu, não consigo dizer ao certo como comê-las e é isso que eu realmente queria o tempo inteiro. Neste blog, é meu primeiro texto erótico, escrito pela madrugada de sexta para sábado. Estou sozinho, não vi filmes pornográficos até agora, mas me encantei com algumas fotografias de mulheres e fiquei me perguntando se um dia eu serei feliz com alguma delas. Queria ser feliz de fato, sem impedimentos e sem cobranças, queria gozar e encher o sexo delas desse líquido que significa o prazer do macho e quiçá o elogio à fêmea.

Por Vladimir Volegov
Tenho profundo amor às mulheres, apenas me deem chances, isso é tudo. Com um ar meio cafajeste, mas com um sinceridade crítica falo isso. Vocês são muito lindas, amo vocês.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Mundo que não me cabe: o cigano


Nasce um ser humano que será devidamente sentido em si e consigo mesmo e todavia muito alimentado e retroalimentado por sonhos aquilatados, dilatados, amplos e notavelmente nobres. Ensinaram aos sentimentos dele que era possível ser grande e grande homem, com valores, com princípios e com ideias bastas de fausto e de inteligência. Desenvolveu pensando que si mesmo fosse alguém que poderia em algum momento adquirir valores e algum respeito, mas não. Foi de um protagonismo imaginado a uma mediocridade desatinada. Chegou mesmo à indiferença, mas sem perder contudo a elegância. Talvez um pouco de elegância bastasse a ele, talvez um pouco de branda respiração e aspirações realistas fossem o bastante. Afinal, no reino da mediocridade, está inscrito no calor do dia desta maneira: "era isso mesmo, não poderia ser diferente". E vindo de gente como nós, não soaria estranho se tudo beirasse mesmo ao fracasso.


O fracasso e a derrocada, bem como a certeza de não ser um pessoa aquilatada como antes sonhara fizeram do protagonista o anti-herói mais próximo que já se houve notícia - o dele mesmo maior exemplo e mais próximo. No entanto, embora faltassem dom e tino para protagonizar o legado de seus antepassados, não houve momento algum que não deixasse de exercer tudo com arte, com estilo, com ousadia, não houve questionamento sobre sua elegância e quiçá seu protagonismo seja apenas ideológico, o que é de forte tese. Não houve, contudo, ideia negativa de si para si, não houve um pensamento que o diminuísse bem lá no fundo. Na verdade, o que nosso empreendedor de milagres - como ousara chamar-se a si mesmo - entendeu lá no fundo é que era aquilatado sim, embora esmorecesse na mediocridade, cambasse para o fracasso mediante plateia ianque. 

Tentou protagonizar o melhor de si, mas chegou o tempo em que não via necessidade de doar-se tanto, pois o que contava era uma simples assertiva e dolorosa assertiva que há muito vinha em sua mente e em sua cabeça: "o mundo não recebe bem a todas as pessoas, algumas ele rejeita por serem embaraçosas ao sistema." Ora, se o mundo rechaça figuras como ele, como poderia explicar-se sua ousadia em querer permanecer? Explica-se pela seguinte questão: a coisa é tão diversa que ninguém chega mesmo a compreendê-lo em suas altas habilidades e por vezes ele se olha no espelho e não acredita que sempre está diante de um milagre. Ele, o fracassado, continua como um milagre, o afamado cigano em terra de charlatães.

O cigano costuma em seus regimes não se prender a nenhuma ideia fixa, não se enraiza em lugar algum, não estabelece vínculos afetivos sequer com suas parceiras e sequer com seus amigos e entes mais próximos, pensa em tudo com muita naturalidade como se tudo se passasse alheio a si, como se todas as histórias que o envolvessem não o envolvessem, mas soassem muito estranhas e limitadas. Ria de muitas delas como o cigano que era, de lugar nenhum, de posse alguma, mas de inteligência capaz de moldar o ambiente em vez de ser moldado por ele, tudo converge para a ideia do homem que tinha nascido para protagonizar o melhor dessa vida, mas escolhido pelo destino para a mediocridade mundana, para enfim tornar-se quem se é por gosto: um cigano altaneiro e elegante Assim é ele, independente.


Não encarava de início tudo com muita alegria, mas aos poucos as perdas foram dizimando seu mundo, suas tentativas de subir aos pedestais desta longa sociedade de falsos aplausos sucumbiram para enfim dar lugar a um terreno chamado "Onde Piso". Somente onde se está é o que verdadeiramente importa, o restante não existe sobremodo. Com muita naturalidade percebeu então, depois de ter perdido tudo que é "perdendo todas as coisas que os outros tanto sobre-estimam que se chega a conhecer quem se é verdadeiramente", ser alguém não depende de conquistas, triunfos, glórias e histórias pouco sinceras para contar, depende de como se portar naquele instante e para aquele instante, o depois ninguém pode ao certo assegurar.

Eu posso ter fracassado em meu protagonismo quando me prometeram glórias quando criança, posso ter me contentado com a mediocridade e ter sido pisado e achincalhado por circunstantes - que passarão como águas turvas de rio lamacento e sem vida -, posso ter sido destituído de onde estou, mas algumas coisas ficam comigo: a memória das coisas que vivi por isso peso injustiças com lucidez, a certeza de ter sido autêntico, a alegria de ter tido mais saúde do que se poderia esperar, a inteligência para aceitar, as chaves para abrir as portas vindouras e, finalmente, saber que o que realmente importa não é o lugar, mas o estado de consciência e nele eu resido bem e durmo bem como rei de minhas posses enigmáticas, como um total cigano. Haja vida e houve, aqui estou, não conseguiram tirar de mim o que mais prevalece: a essência inigualável.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Ser livre é ser só: o mundo não perdoa aos "diferentões"

Memorial Roosevelt 
Ficar só, eis tudo. Em certos tempos, tu podes suportar ofensas, é tolerável que tu cedas a outros em seus devidos caprichos, cedendo como quem faz isso por gosto e não por obrigações. Mas tu não suportas mais mesmo é a ingratidão, ingratidão pelo que és, pelo que fazes de bem para o próximo. Ora, "faze o bem sem olhar a quem".

Sim, certamente, mas a dor costuma vir de lugares muito delicados da alma, então tu sentes que mexeram não em tuas feridas, mas mexeram no invisível de tua serenidade, no âmago de tuas melhores e boas intenções, mexeram naquilo que jamais pensarias ter em ti de modo tão tênue e marcante, mexeram e obstaram a tua liberdade.

A liberdade de pensares como ainda em tenra idade pensavas, como criança plena de criatividade que foras; a liberdade de crescer e vivenciar por ti mesmo as melhores e as piores experiências, entendendo que tudo não passava de alguns desvios externos que não iriam comprometer tua força juvenil e altaneira.

Plêaides

"Faze o bem sem olhar a quem", então tu ouves tacitamente: "tua vida é feita por tuas escolhas!".  Faço então minha prece às musas estelares, pois, como está escrito em Dante Alighieri: "se seguires a tua estrela não poderás deixar de atingir o teu glorioso porto".


Ó mi'a diva luz que em doces 
Que em cintilantes conselhos 
M'inspira ciente sê
que d'altos céus vicejando
N'as divinas rotas tuas 
Apelo sutil te alço 
Sinta, ó inspirada estrela 
De ninar, ó deidade 
Múltipla, de ondas remotas 
E d'outras plagas vens
De mi'a parte dito fausto
Ó Nobilíssimo clamor
D'altas sabedorias 
em magnânimo voto
em anseio vosso livre
Liberdade também gáudios 
De ti portar desejo 


Ao que de tudo que te resta, surgiu a ti como em espectro, como em sonho incontido e irrealizável, então toda a liberdade estava em ti mesmo, mas em ti menos emocional e mais racional e altivo e se tiveres de pagar um preço pela tua liberdade que evadas de tudo sem para trás volveres os olhos: "vai-te daqui, mas não queiras olhar para trás!"

Sorri a quem te sorri, mas segue tua destinação na possível conformidade com teus anseios. São teus próprios anseios aqueles que te isolam, todavia, estes mesmos, teus anseios são os verdadeiros portadores da liberdade. Viver só enfim não é o mal maior do homem, mal maior é viver agrilhoado por entes, ainda que iluminados, que de certa forma não conjugam com teus ideais clássicos, de estátua grega ou de letras latinas.

Foste longe demais em tuas empreitadas literárias, tomaste para ti o Dom Quixote de todos os dias, mas sem um Sancho Pança que te ouça, lembrando que ou tudo é real ou tudo é mera ilusão, a resposta certa ninguém poderá ao certo dizer.

Ó dura batalha de pertencer a ti mesmo, não darás satisfações de teus atos, mas não constituirás família, não prosperarás de mais a mais, porque o cordão de um nó apenas arrebenta na primeira adversidade ou intempérie. Serás só, eis tudo, este é o preço calculado de toda empreitada solitária, vem como ressaca marítima, mas certamente vem. Ao que tentei amar, mas deixo minha prece às minhas caras estrelinhas.

terça-feira, 19 de julho de 2016

O mínimo "eu" na Megalópole

Circundado por edifícios cambiantes em luzes e com entra e sai de pessoas, ora acauteladas ora apressadas, fechado por sombras de mais edificações e cheiros de ventos de corredores inóspitos exalando a desinfetante, assim caminha o leigo homem na grande cidade, os arranha-céus vieram e lhe retiraram a saudosa cidade em que vivia. O passado em sombras ecoa memorando ruas eternamente cravadas no dileto sonho do caminhar por jardins floridos, ali se viam paralelepípedos, singelos cercadinhos de cada jardim, ladeirinhas com casinhas de construção padrão a ornamentarem nossas famílias que eram em sua totalidade guarnecidas por telhas sem forro, muros com frutos de cá e lá exorbitantes, formigas invasoras e fujonas, bolas de futebol a cair e a voar de um lado a outro, bondes que trafegavam, trazendo à cena o retorno do pater familias à casa com o semblante da hora da canção da Ave Maria.

Assevero-me que vivi aqui em tempos remotos, como certa vez em mídia distinta registrei:



"Porque quando vejo a Belo Horizonte de 1910 vejo paz
Vejo pelas edificações uma cidade encantada e ainda promissora
Vejo janelas e vejo o verde, vejo ruas e vejo passeios à tardinha
Mas como posso ver o verde?
É porque me parece que realmente estive ali naqueles idos
É porque me vejo firme nessas ladeiras imemoriais
Sim, eu estive ali, como transeunte olhando o futuro
Como um que registrasse hoje as vagas impressões
De dentro de um restaurante no momento de suas depressões
Passou-lhe mais as revelações da imagem do que degustativas
A televisão e as pessoas e o alimento à mesa sumiram
Fiquei observando identificado a cidade de onde vim
E percebi mais triste ainda que todas essas construções
Todos esses desenhos magistrais de uma cidade bela
Tudo, absolutamente tudo deu lugar a outras construções
E quando me vejo hoje em árvores derrubadas a passeios novos
Penso que a história dessa cidade e de muitas outras continua idêntica
Penso que de casas e de prédios virão outros
Penso que de árvores e ladrilhos virão carros, protestos e dias cinzentos
Mas penso ainda mais, foram-se os burros de carga, os homens de terno, as mulheres com seus vestidos primaveris e guris à barra de suas canelas
Penso que hoje a bela cidade continua indo transformada
E que daqui a alguns dias irei também eu apaziguado, amortizado
Irei como os de outrora
E haverão outras pessoas que refletirão de imagens e em imagens
E enfim a integralidade do todo fará tudo perfeito
Pois os tempos idos de BH rememorada são os tempos presentes de BH fundindo-se ao futuro como nessa mesma ação
A cidade antiga sempre presente em memórias laudatórias
E a cidade dada como morta não pode parar pela forte carga de um passado enérgico, vigoroso e sutil
Porque quando vejo a Belo Horizonte de 1910 vejo a mim mesmo
Vejo pelo que havia e pelo que é uma grande vocação paradisíaca
Finalmente, ela não morreu, apenas esqueceu de ser lembrada
Esqueceu que alamedas são mais incessantes do que avenidas
Que bondes mais permanentes do que automóveis
Que homens de terno mais felizes do que homens de camiseta
Vivendo 106 anos após com uma desusada ilusão poética do quintal que lhe criou"


No hoje revidado em seu sonho antecessor, está o vagante caminhando perdido por entre desconhecidos que trouxeram à cidade luzes e anonimato, feiras e desigualdade. Aquela outrora projetada megalópole reduz o "eu" a um participante mínimo que floreia quando em vez seus rabiscos à procura de quem melhor o entenda nesse grosso caudal da convivência. No entanto, tudo que na vida mais ventura traga, fim próximo tem, nada eterno persiste nessa estrada infinda, ainda que queiramos o contato com entes do passado, com ruas do passado, com brincadeiras de nossa infância. É, pois, necessário, semear as novas contingências desse presente que minimiza cada ente, ao que novos homens empreendem novas histórias, mesmo em suas limitações mais cruzadas.

A cidade ergueu-se natural ao longo dos anos e com muita força de gente honesta e hoje se afigura como uma das grandes capitais do mundo, mas alguns que ainda aqui vivem sentem a vera nostalgia dos tempos em que famílias se entrelaçavam e os amores por fim se enleavam com beijo e muitos amores. Ali, o contato era físico, evidente e de todo amigável, hoje, entretanto, todo contato é suspeito, toda investida é calibrada de receios e por isso ficamos sós, mínimos em nosso "eu", naquela que era para ser uma cidade hospitaleira e de todos. Não amargo os tempos findos, mas anseio os tempos em que o moderno e a modernidade cedam enfim à mais antiga história de fundação dessa cidade: erigida na paz, no seio da família e na conjugação do amor.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Bem consigo mesmo

Os obstáculos à felicidade humana não são verdadeiramente obstáculos, ao que o verdadeiro obstáculo é a morte, enquanto esta não houver, haverá ainda um motivo para que se possa dizer de si para si: "folgo em me ver bem e o mais não me importa". Em todos os dias, é necessário lidar com estradas - essas que devemos percorrer diariamente - e de todos os desafios, os mais difíceis de lidar são os desafios da mente: a produção de sentido executada pelo pensamento em virtude dos muitos símbolos pelos quais representam a vida que vivemos. Nessa vida não há sequer um momento sensitivo que não passe pela esfera simbólica, assim é necessário que de símbolo por símbolo que melhor sejam os símbolos da positividade, pois nada é realmente o que parece se pensarmos ao fundo que o melhor mesmo é estar bem consigo mesmo.

Prantos, discórdias, fracassos, perdas, tormentas, tempestades reais, mentais, enredos não previstos, acusações, traições, falso testemunho, calúnia, difamação, perseguição, desordem, dívidas, desencontros, solidão, falta de tino no amor, derrocada abrupta, discussões, advertências, encontrões, cismas, paralisias, cortes, rupturas, fragmentos, incursões, riscos, desafetos, iras, covardias, tudo isso ainda não deveria e não é suficiente para tirar do indivíduo a alegria e a felicidade, visto que estar bem consigo mesmo independe de todas essas situações que são, em certa medida, externas a ele.

Ninguém é de ferro, mas nada melhor do que assistir a um filme, ler um livro, deitar-se em uma cama confortável, realizar um passeio em lugar bonito de se ver, compartilhar da cultura, ouvir uma boa música e ter de si para si uma boa reflexão.

Pesadas todas as adversidades, aquele que está bem consigo mesmo supera a todas elas, liquefazendo as perdas como que dissolvendo resíduos sólidos e os escoando pelo esgoto. Aquilo que não tem valor deve ser colocado em seu lugar, aliás lugar que não tem lugar, assim na inexistência. Não serão as reviravoltas que me trarão tristeza, pois são exatamente as perdas que fazem o ser refletir que é por elas que se avalia a essência. Talvez, é perdendo que se ganhe, a força só é força na requerida hora, ali ela é flexionada no peso que lhe é imposto, como necessidade e como reação igual e repentina a essa necessidade que por ali surgiu, por mais chã que seja, mas contra a força não há resistência possível.

O essencial, então, está na ordem da frieza com aquilo que é frio e na dureza com aquilo que é duro e importância mesmo só aquilo que emociona pela realeza, pela nobreza e pelo tino mais acertado com o caráter e com a idoneidade. Toda crítica ou desconstrução que fazem de si e contra si são infundadas se o ser não se conforma no rótulo que lhe é imposto, e isso, com toda certeza, é uma ação quase sem ação, quer dizer, não necessita esforço algum para ser feita e passada a limpo. A essência é sutil e grave, nela não se pode alterar nem mexer na natureza que lhe é familiar, ela é sobretudo óbvia. Então, por que pensar naquilo que não constrói e que externamente chega? Sem função, é hora de caminhar só, mas só sem dar a mínima. O amor? Venha de quem vier, virá na hora certa.


domingo, 3 de julho de 2016

Quando a missão ainda não se completou

Os olhos podem ver as turbulências de uma vida ainda em vias de aprumar, os olhos podem considerar com toda a angústia as circunstâncias pessimistas, amargas e tristes. No entanto, aquilo que os olhos não podem sequer divisar em sua mais completa nitidez é a função, a sequência e o término de uma missão. A vida poderia em certos momentos parecer banal e corriqueira, porém a missão é portentosa e espantosa. Ainda que em adjacências menos conscientes e com visões turvas e pouco mediadas pela sabedoria digam evidentemente o contrário, o eixo que recoloca tudo conforme a vitalidade da força astrofísica, física, biológica, endêmica, sistemática e prevalente em um ecossistema específico eclode em uma existência indelével sem que haja para isso solução pertinaz ou maldosa para liquefazer o milagre da existência. O triunfo é obra projetada desde tempos imemoriais, não haveria portanto como abortar uma missão, tanto mais se essa missão for uma vida.


Ainda não é chegada a hora do término de uma missão que possui origens tão distintas e vigorosas em seu alicerce histórico. Não existe para tal um desfecho imprevisto, para todas as ações prodigiosas existe decerto um merecimento. Não estará aqui para completar a missão de outro ou desempenhar de maneira farsante a estrutura alheia. Aquilo que é meu é dado por natureza e nada que for da natureza de uma missão é capaz de ser tirado ou roubado. Pouco adiantam os choros e as tristezas por que se passa, pouco adianta choramingar, fato é que o início, o prosseguimento e o fim de uma missão é obra oculta e parcialmente revelada a seu protagonista, tanto em sentido extrassensorial como por alguns indícios de que haveria um conjunto divino de coisas a favorecer pelo bem e para o bem aquele ente querido pelas estrelas ou pelo Criador.

Notadamente, brilha uma vez a chama da esperança, depois de tormentas incessantes, sempre a
bonança. Notadamente, rebrilha novamente a esperança, mas de maneira mais concreta, pois por mais que os olhos não divisem progresso algum em uma biografia, ainda de fato é necessário reconhecer que houve muito progresso, muitas conquistas após muita luta, que foram vencidos obstáculos quase intransponíveis e que foram superados de maneira solitária e honrosa e que, se assim foram, os méritos desse Hércules engradecem a obra de toda uma vida. Não é evidentemente o fim de uma missão aqui neste planeta o fim que pretendiam que fosse, mesmo porque a luz que irradia belezas de alma retumba invisivelmente em astros e seres angelicais para a proteção e para a ordem terrena.

É necessário reconhecer que não podem ser postergadas as missões irrevogáveis de uma biografia que tem exatamente tudo para triunfar em honra, sabedoria, experiência, habilidade e principalmente em força. As virtudes do escolhido - e muitos são escolhidos - são as virtudes que muitos em uma análise pobre e cotidiana às vezes menoscabam com risadas e desdém, são essas, contudo, virtudes de extrema pureza e conhecimento. Diante de tudo isso, existe uma consciência tranquila e perspicaz para dizer a si mesmo: "o que aprendi com esse golpe desleal?". Sinceramente, os elementos da sabedoria que encabeçam as alturas estelares começam por desafios ignóbeis. Sim, escrever é bom, refletir é bom, caminhar é bom e a lição é: "ainda que muitos não me gostem, importa que eu seja, em tese, o meu melhor amigo, pois a missão é árdua e quase infindável, há que se ter disposição e uma certa dose de coragem, pois as mudanças são sempre quebras e fraturas existenciais inexoráveis".

De fato, de admiráveis encontros com o melhor que há nessa vida e também com sofrimentos cotidianos é que se forma a conjuntura existencial de um vencedor, mas nada, absolutamente nada, transfere um erro a portador diferente. Não é porque muitos me fizeram sofrer e solaparam minhas alegrias e sonhos que desistirei deles assim prontamente. Ora, seria eu a entregar o ouro a meu pior inimigo? Admitir que fracassei em meus projetos de vida? Ora, como ia dizendo, o que os olhos conseguem verdadeiramente divisar não traduzem a força de uma biografia ainda por se completar. Ao que as provações fazem parte do alcance que poucos podem suportar, pois o sorriso destes seres livres e sinceros sempre machuca quem ainda não tem motivos próprios para sorrir, desata em dor, mas nem por isso deixaremos de sorrir tampouco deixaremos também de prestar auxílio.


Se sou eu a sorrir, é certo que já triunfei perante os fatos corriqueiros do cotidiano, sorrir para nós é essencial, traduz a razão pela qual fomos criados, para ser feliz, para triunfar e completar a missão maior de nossos dias, deixar ao menos um legado, uma boa lembrança, mesmo que tenha sido tudo passageiro como um cometa, mesmo que tenha sido prematuro como em um acidente fatal, mesmo que alguém tenha sido interrompido por uma doença, por uma fatalidade... Agora, se os sentidos reclamam a você algumas atitudes extrassensoriais, altruístas e humanitárias, com toda certeza o que falta é tino, o que falta é reconhecer que a missão é ajudar e se não for para ajudar que a missão seja eterna até que se complete em sua essência mais enraizada e profunda o objetivo para qual foi mandada. O mundo é dos que têm missão programada e a cumprem com serenidade com as mãos estendidas. 

Leveza é essencial: o inverno em BH

Jair Amaral/EM/D.A PRESS
Com um olhar mais detido assistimos às flores rosas do ipês em Belo Horizonte, no florescer, no cair, nos ventos e nas pisadas. O clima de inverno em BH é bem ameno com friozinhos pelas sombras e algum calorzinho pelo sol direto na face, nada que incomode, nada que nos impeça de trabalhar, dormir bem e sem exageros nos trajes. Diante desse frio, alguns ventinhos nos cantos das casas, em nossas idas à rua, é frio bom que para muitos, os friorentos, chega a enrijecer o corpo, mas para aqueles que concentram na vida que isso encerra, é um frio bom de ser sentido, salutar. Com essas rajadinhas, a nossa respiração parece mais pura, alguns ares são úmidos, parecem vindos das muitas águas de nossas Minas Gerais, pela umidade temperada em fontes de vida.

Nesses dias, a água da torneira, mais gelada, possibilita mãos mais limpas, o choque térmico é instantaneamente sentido, mas na assepsia nada mais ideal. Um banho frio ainda cai bem, nas primeiras águas, muita tremedeira, mas aos poucos vamos nos acostumando e isso me faz lembrar de Meaípe-ES, em que as águas são muito geladas, então disse a mim mesmo que era bom tomar banho frio no inverno, mas o inverno mineiro é tranquilo. Em algumas localidades, podemos ver nevoeiros, clima de ficar em casa e comer comida quente. Certa vez passei um fim de semana de junho em Congonhas-MG e foi muito saudável, com todo nevoeiro que pela manhã pudemos contemplar.


Os trajes devidamente nos acalentam, alguns ganham contornos de elegância, é a necessidade do corpo e o porte da alma. A casca vivaz de uma invisibilidade de sentidos. É bom nos vestirmos com o agasalho que vovó tanto nos cobrava. Nas noites mal dormidas ainda observamos janela afora que todos dormem, o frio faz as pessoas adormecerem, mas já por volta das 5:30 hs, aos poucos as luzes dos prédios do bairro Prado e do Gutierrez começam a acender o dia. Aos poucos os ruídos dos trabalhadores matutinos e a chegada de víveres às padarias, açougues e hortifrútis acabam por compor a grande sinfonia da manhã. Pássaros tímidos, mas que depois da aurora estabelecem com o enredo da luta diária uma breve sincronia de vida, momento frio do dia em que, por necessidade, natureza e homem se levantam para a condução da carruagem do destino.

Nada mais leve e nobre do que o sentido da manhã fria de inverno, a leveza dos seres, a culminância da aurora, a simplicidade dos rostos, até que algumas lanchonetes chegam, depois as bancas de revistas, depois ainda o comerciante mais necessitado, para depois tudo que é devidamente preciso sob certas circunstâncias, uma loja de roupas, um restaurante, uma loja de estofados e tudo corre. As mulheres parecem, apenas parecem, sentirem mais frio, mas isso poderia ser só aparência, na observação muito rápida que fazemos. O céu nessa época em BH é simplesmente azulado sem nuvens e por isso mesmo lindo. A natureza se recompõe um pouco nessas épocas de recuo e de chazinhos os mais variados: maçã, mate, erva cidreira, camomila. Abraço o mundo com meus sentidos invernais como se estivesse me vendo de fora para dentro, como um que vivesse nessa atmosfera vital como todos os outros. Lá de cima eu me vejo.

Os dias de inverno em BH não são todos iguais, na Zona Sul com toda certeza e na aproximação com Nova Lima-MG mais frio há, na aproximação com o Centro menos frio. A altitude varia entre 850 metros aqui pelas cercanias do Prado e Centro até cerca de 1000 metros na região do BH Shopping. Naturalmente que os antigos sempre afirmam que em virtude de alguma urbanização sofrida pela cidade após a década de 60 que o clima mudou radicalmente e os dias de inverno de BH pouco lembram aquelas priscas eras. No entanto, nestes dias pude sentir e ver 11 graus centígrados com desfaçatez, na Zona Sul sempre um pouco mais frio, talvez 9 ou 10 graus. Ao que tudo isso não passa de dados e de lugares, o principal é que a vida é recheada de estações e também de fases, fases previstas e imprevistas. Importa ser um observador da sazonalidade e de seus ciclos, ao que estamos ainda muito novos para aprender.


Leveza em tudo é essencial, nos dias de calor pouco ou muito pouco paramos e pouco observamos com cautela os giros do planeta, o nascer do dia, a mudança nas faces, tudo ocorre muito rápido. Assim, no frio, é possível caminhar com mais vida e concentração no olhar, é possível ver e viver em noites regadas com esperança. Não há, contudo, espaço para estragos e para auras e ideias pessimistas, é necessário sobretudo adquirir a serenidade das estações baixas, pois, se é para aprender, a natureza será a nossa grande conselheira e mestra. Venta, corre assobiando, ventila em recantos e cantos, zune, folhas lindas de ipês rosas, praças em seus contornos mais retificados, ruas menos agitadas, corações mais abertos à conciliação. Enfim, leve como uma pluma, assim é permanecer em si e junto com a natureza, a frialdade é o limiar do progresso e da eternidade.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A antiga casa: a verve poética memorialista

Retrato de Família
A família se restaurava com lombo ao vinho branco, com discretos legumes picotados, bem discretos. A feliz família naquele ano incerto era unida e Chopin ao fundo traduzia a harmonia familiar daquela noite. Como acompanhamento, rúcula, pirê de batatas, arroz, abacaxi assado e outras coisinhas. A mãe de família responsável pela trilha de Chopin já iniciara um de seus lindos filhos na arte do piano, tendo comprado um piano vertical confeccionado por madeira com acabamento e brilhos de boa empresa e fazenda. A família versava nessas restaurações à mesa, comia fartamente, sempre sobre assuntos da alta cultura, muitos de seus convidados quando os tinham à mesa, sentiam-se muito constrangidos, pois além de alta gastronomia, muita cultura inacessível aos circunstantes lhes deixavam sempre constrangidos.


Fato é que a família e a casa subsistiram por muito tempo em seus grandiosos dias, sempre reclusos em seus domínios, eram felizes, pois cada um a seu modo, divertia-se ora com livros da alta literatura, ora com planos de alto capital na área de engenharia e tecnologia da informação, ora no trabalho de gestão pública e empresarial. No entanto, os dias áureos se foram de maneira trágica, mas os contornos austeros da estirpe desses meus conhecidos jamais, a elegância sempre fora natural e forjada por altos estudos e boas convivências. A alegria do convívio com gente ligada à arte, com gente certamente saudável, deu-lhes durante tempos mais refinamento e força diante de uma sociedade pouco alavancada intelectual e socialmente. Era sempre uma reserva que tinham de ter por conta de serem eles uma família sofisticada. 

Os dias de declínio começaram com a perda de um ente, com os matrimônios dos filhos, com a separação do casal que era o sustentáculo daquele modelo de família invejada, cristã e fortemente amparada pelo melhor círculos de relações possíveis. As alturas que estes trafegavam eram dignas da mais alta conta e incomparáveis, ao ponto de estarem sempre flutuantes diante de todos à sua volta, alguns até lhe faziam alguma penumbra, mas jamais algo que ofuscasse a naturalidade com que procediam rumo à genialidade que desempenhavam no corpo a corpo laborativo e também na prática de bons costumes.

Era uma família perfeita, até que a limitação imposta pelo corpo e pelo que há de terreno em nossa existência pôs fim à perfeição ostentada. No limiar da eternidade áurea se viram, mas por um lapso foram jogados à sarjeta emocional como que de repente e injustamente. O mais triste que se pode haver é a ciência que se tem das coisas. Em um momento, os olhos azuis brilham, o sorriso largo invade a tudo iluminando a todos na normalidade de pessoas felizes, mas as notícias e os acontecimentos de tão inacreditáveis derrubam a alegria certamente como se o significado da vida lhes tivesse sido arrancado de chofre.

A família prosseguiu sua sina, consequentemente espalharam-se pelo mundo, dotados de grande estilo, dotados de grande capacidade de produzir o melhor para o corpo social, fazendo e realizando proezas e obras lindas para a humanidade. Souberam constituir novas famílias, souberam encarar a ausência, mas sempre cientes de que esta ausência não significou nem significará uma perda real, pois as projeções do que este ou esta poderia ter sido se não tivesse falecido é implacavelmente real, ele ou ela realizaria tal feito se estivesse em tais e tais condições e, nesse caso, nessa família, o ente perdido é o modelo pelo qual se espelham e se veem representados aqui e além morte.

Pieter Claesz

Entre taças e talheres e cadeiras, entre manhãs límpidas, tardes que caem, dias após mais tantos dias, enfim correm as horas imorredouras e desaparecem personagens e aparecem outros, mas o fantasma pessoal ressoa como boa memória, como em letras poéticas de verve absolutamente literária está restaurada a obra da pessoa em sua composição corpórea, sonora e sensitiva. A poesia pode vir de memórias e de afãs, mas muito mais da montagem de letras é que se compõem as formas e os contornos e os traços de alguém que se foi, que partiu sem mais delongas, com o episódio duro de ter cravado na obra dos viventes sua insígnia mais dileta na vivacidade das lembranças, esta é a memória contada por letras, letras luzidias, eternas.

domingo, 22 de maio de 2016

Carta de D. F. O. C.

Embora a névoa não reconheça desde já a imagem profanada, aqui estou reconhecendo de mim para mim e de mim para o universo que fiz a minha parte nesta vida. Por muitos momentos pude ser feliz porque percebi que me alinhava muito mais com a eternidade do que com a efemeridade, mas infelizmente nem todos que estão ali e aqui a minha volta, em meu entorno, concordam com tudo isso. Fui uma excelente pessoa enquanto pude viver, procurei ser feliz sem prejudicar ninguém, procurei realizar o melhor de mim no trabalho que fazia, procurei com muita força excluir de minha vista e de minhas memórias todas as afrontas injustas que sofri e no calor do dia procurei não verter lágrimas e se verti não fui devidamente percebido nisso. Por tanto sofrer, tornei-me menos sentimental e mais racional, não esperei mais nada de mais ninguém. Amei também as mulheres que pude amar e amei enquanto fui compreendido, mas até mesmo estas me traíram. Que foi que eu fiz? Nem sei ao certo, mas existir é a pena mais dura que se pode ter depois de tentar existir, mas perceber que tu és indesejado na existência é um tanto mais doloroso, mas cumpri com minhas obrigações.

Entretanto, existe uma verdade que beira a eternidade, a convocação para a existência, o nascimento e o fim de nossa jornada estão profundamente concatenados em mentes arranjadas e superiores. Não é o desgosto pela vida que me permitirá despedir-me agora e me despedindo com desculpas não me fará partir só porque desejo. Na verdade, em certos momentos de nossa vida mais real, de nossa vida mais vista e menos fantasiosa, percebemos a inutilidade de certas coisas, percebemos que realmente muitas das ilusões infelizmente se perderam, cederam à verdade inenarrável. Aliás, não ser bem sucedido na vida não credencia desde já ninguém à infelicidade, não ter sucesso pode ser o início das reflexões mais cristalinas que se podem ter e ouvir de si mesmo. É com grande pesar e com grande sinceridade que confesso ter sido mais infeliz do que feliz, mas com toda a humanidade que pude ter declaro ter sim feito a minha parte. Do que pude e do que não pude, eu realizei atos prodigiosos. Até enlouqueci com nobreza, com caráter, com uma certa dose de elegância.

De todos os atos que tive e obtive, de todas as louváveis peregrinações, talvez a maior delas tenha sido caminhar nos rumos mais sutis de meus relacionamentos familiares, a família não é uma instituição formal e de papel, a família é um elemento da espiritualidade mais forte que se pode crer, ver e viver. Se a família cai, o homem cai; se a família sofre, os justos pagam. Não há, contudo, culpa de ninguém, ninguém é culpado pelos atos do portador do ato em si, se você não obteve o sucesso que suas professorinhas assinalavam na escolinha Estrela Dourada é porque alguma coisa em si mesmo e dentro de sua cabecinha já ia errado, já andava errado. Decerto, a humanidade de uma pessoa deveria valer muito por aqui, mas em nossas relações, em nosso dia a dia, percebe-se que não valemos muita coisa. Assim, sair desta casca corporal que visto hoje é algo que não ajunta muitas preces nem muitos cuidados, verdade é que ninguém se importa com quem não oferece alguma coisa, a vida é uma barganha tola e ácida.

Espero, todavia, encerrar meus dias e cerrar meus olhos tendo a possibilidade remota de ter algum amigo extemporâneo, algum amigo ou alguma mente cristalina lá dos altos céus, lá desde as letras estelares, lá desde os céus infinitos que fazem diretamente suas preces aqui. Se realmente os lados obscuros da existência tiveram a ousadia de procurar ferir-me, digo desde já que muito mais luz irradiada pode sair daqui do que se pensa, do que se cogita, daquilo que se pretende falar, dizer, pensar e julgar em mim sem sequer me conhecer. Eu lamento a pura ignorância das gentes que sequer puderam conhecer uma figura extraordinária e conhecer de verdade suas qualidades mais legítimas, eu lamento que tenham que se contentar com a fagulha ligeira que foi minha existência, com a fagulha que pouco revelou de seu ofício celeste. É, pois, imperioso que os maus ainda me divisem em minhas jornadas etéreas, se os tiranos me fizeram sofrer, se os corretos desta terra, se as mulheres mais indignas me massacraram, se os amigos mais infiéis se infiltraram, se a ingratidão foi o refrão de suas ações, sinto informar que do outro lado da vida serão devidamente cobrados.

Deitado estava, recostado, amplamente desiludido, deitara-me e algumas palpitações foram enrijecendo minhas pernas, meu peito doeu, minha cabeça parou verdadeiramente de funcionar, vi-me vendo o dia clarear e ninguém a me acordar, não sentava, não equilibrava, mas também não queria me elevar, levantar-me, estava mesmo era gostando da morte, estava mesmo era degustando o raro prazer de não ver e de não ter de encontrar com ninguém desta terra aniquiladora que me recebeu mal, que me aquilatou mal, que me tratou mal e que me bateu, agrediu, feriu. Terra ou província que me deixou amargurado e só no alto de meus anos, no alto de minhas experiências, que alongaram meu sofrimento que provinha ora de fontes moralistas e benignas ora de nascentes pantanosas da acusação de quem deseja mal. Encerro meus dias como se cerrasse uma porta. Fecho minhas saliências e alegrias como se retornasse com os lábios ao sem sorriso. Enjaulo-me na caixa marrom do sepulcro como se ali nada estivesse e que nunca esteve em lugar algum.