segunda-feira, 16 de julho de 2012

Amores Ingratos que Machucam

No profundo olhamos um para o outro. Olhamos, sorrimos, dentro de cada um mais sorrisos, mais razões para a euforia até. Nasce repentinamente fora do tempo do relógio um ligeiro gostar, um breve êxtase. No entanto, o êxtase de um é mais êxtase, é mais sincero, a vontade de um quer repetir-se mais e, enfim, aquele que sentiu menos já não pôde amar. Desde o primeiro encontro magicamente uma aura de ilusões se fez e se desfez, um brilho estelar envolveu mentes sonhadoras. Mas por que então o primeiro perdeu o sorriso? Por que desacreditou? Ou por que, tendo perdido o encanto inicial, prosseguiu mentindo naquela formidável aura dos primeiros encantos? Não pode ser, quando rumamos ao amor vamos ao encontro do triunfo, corremos em direção a coisas certeiras, percorremos alegres trilhas, calçadas a ouro, de encostas floridas e de colinas de estampadas cores. Enfim, em um lapso de consciência, a má consciência, o amor escoa, desce repentinamente, derrete. Passou a luz.

Ninguém se inicia pela saga do amor desacreditado e, pela fiel e cega crença, é que nascem as desilusões que, traumaticamente gravadas na tábula de ingênua alma, desenham infelizes traços, daí a permanente desilusão e, como consequência, perigosos rumos. O erro que vai do céu ao inferno. É a dor do amor e o concreto perigo de se estar só, mas a solidão acrescida da falta, estado muito pior do que a solidão juvenil de quem nunca amou. Todavia, um pode ter agido mal, pois no amor valem as palavras e os cênicos gestos que passam por realidade. Na alma vai gravada a perda, para sempre. Ao ser humano, resta sempre a superação, a renovação, o verde que brota e o nascedouro purificado da água. Entretanto, naquele lugar profundo da alma, fragilíssima, atingida, maculada, lesada, ainda haverá fertilidade? Haverá depois dos sorrisos que marcaram, das razões eufóricas, das promessas esperadas e, enfim, no tempo fora do relógio, haverá a queda tranquila à consciência do nada, a queda serena à solidão, à comum natureza humana, aquela sem reparos?

Amores que machucam são os que foram amores, ao menos de nossa parte. Amores que duram, um prodígio, mas o durar do amor não tem relógio, é a perda a cada dia, mesmo ali já dói. Que pérfida razão! Ousaste mexer nas pupilas sagradas do coração humano? Ousaste, macomunado com Eros, driblar os sinceros sorrisos de seu antigo e confesso amor? Ousaste bem, pois ao infiel, ao despreparado para o amor, ao insensível, nenhum dano há, pois os amores que machucam ferem somente aos que amam. E amar é para poucos. Doutro modo, naquele profundo do olhar, no gozo do repentino gostar, não há atividade, somente passividade, é luta desigual, será sim arremessado ao léu, ao infinito desconhecido. E pior, uma vez alvejado, movido em seu interior, o amor potencial realmente morre.

Raízes de antiga árvore, agarradas ao chão, folhas como pasto para as gerações, as cores, antes vivas, agora remotas, opacas, apagadas, mortas, a antiga casa da alegria, do compartilhamento de emoções, tornou-se então a fealdade de uma alma que se consome de dentro para fora. O luzidio olhar, a tez jovial, tudo dá lugar a uma queda de ânimo, a um arfar mais desanimado, pois os amores quando machucam não cicatrizam, pois, invisível que é, ele não possui antídotos tópicos, locais, anestésicos. A dor de alma foge à compreensão, fica escondida por trás da razão, ocultada, sorrateira, traiçoeira, a flecha de Eros perpassa o Ego e vai morrer na alma. Ó dor antiga, ó mundo cão, diz o amargurado de coração, pois entende e vê que o fim para quem vive é o fim que mais dói, que mais machuca. A flor que, única, foi pisoteada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário